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21 de fevereiro de 2018

[Conto] Thrummaz - o Rei Anão - Parte III

► Veja a Parte I
► Veja a Parte II


 Gillibrand desapareceu por uma escadaria para o piso superior, enquanto os três anões carregavam a petrificada Ynahum Thyrin por uma estreita mas firme sessão de degraus para o Sótão. A escuridão completa não atrapalhava os anões, senhores das cavernas e dos submundos. Podiam distinguir facilmente o círculo descrito no meio de um calabouço transformado em biblioteca arcana consideravelmente ativa. As paredes eram forradas por móveis de madeira que ostentavam livros, pergaminhos, tubos de vidro, peças de laboratórios, e uma discreta alcova com bigornas, uma fornalha de carvão mineral, e um martelo apropriado para pequenas peças.

 Volthrur e Elger aprumavam a estátua de forma a manter o respeito pela sacerdotisa, enquanto Thrummaz subia ao plano térreo. Ele ouvia cascos de cavalo, e se preocupava.

 Magistrado Kype regressara. Faz uma pesada reverência. Algo pesava em seu semblante.

- Coronel Dyomaz dispensou os emissários aurianos. - Fala ele. - O coronel está ciente de Vossa presença e deseja compensar a ofensa com um banquete em Vossa honra, majestade.

- Más notícias nas conversas com o Império? - Thrummaz arrisca.

- O Coronel decidiu rejeitar a oferta. - Fala enfim o magistrado. - Quase certo que a próxima visita não será a de diplomatas, mas conquistadores.

 Thrummaz imaginava que o coronel, àquela altura da vida, iria aceitar ser anexado ao Império Áureo. Estava genuinamente surpreso pela decisão, e temia que sua presença na cidade-estado era uma assertiva de dissuasão. Devilon era longe demais para receber reforços dos aliados de Lyon sem ser algo ostensivo. Mas após a Grande Guerra de Donaire o coronel, um veterano da batalha, tornou seu castelo um ponto seguro para os refugiados e os colonos. E teve sucesso em proteger o que viria a ser Devilon por todos aqueles anos... 

- Serei honesto, caro primaz... - fala o rei com ritualística apropriada. - Esta situação de sua nação foge a minhas expectativas. Não farei a afronta de não me apresentar a seu regente, mas...

- Eu entendo. - Interrompe o magistrado. - E eu ouso dizer que aconselhei que o coronel aceitasse a anexação. Não por objetivar afrontar Tyrun ou nossos vizinhos ocidentais, mas estamos na era dos Grandes Reinos. Murar uma cidade é forma antiquada de governo. A decisão de nosso coronel foi mais por ideologia e orgulho do que visão política.

- Por isso eu aprecio tratar com os devotos do Deus da Justiça. - Thrummaz afirma. - Vocês são respeitosos, mas não hesitam em falar o que pensam com sinceridade genuína. Mas devo dizer que eu não... posso me dar a este luxo. Seu regente deve ter coisas a ponderar esta noite. Eu o buscarei amanhã formalmente. É uma promessa.

 O magistrado entendia que estava sendo dispensado. Era uma situação estranha, mas não sabia o protocolo adequado de confrontar um rei. Preferiu dar as vezes aos desejos de Thrummaz e partiu. 

- Até que enfim. - Urra alguém no sótão. - Achei que ele nunca iria embora!

 Gillibrand posava de um anão velho e fraco quando se encontrou com o rei. Mas agora parecia outro... parecia um fantasma do passado.

 Ele usava uma placa peitoral formal, com adornos no ombro indicando divisas dos magos de Batalha de Skellos. Suas pelugens estavam razoavelmente aprumadas dando um ar de elegância ao idoso. Quando muito jovem, Thrummaz viu guarnições com aquele mesmo uniforme, e temeu por sua raça. 

- Sei que eu fui "perdoado" por ser um desertor, Majestade... - o nibelungo reforça a qualificante para confirmar que sabia com quem tratava. - Isso porque meus superiores eram eugenistas tolos e não tinham escrúpulos em mentir e distorcer para aliciar as fileiras. Mas Donaire trazia poder e propósito para os meus. E se não fosse eu não poder conviver com a mentira, estaríamos em lados inimigos da guerra como era o destino.

 O desabafo deixa o rei sem palavras. Por um instante, imaginava que o mago iria erguer as mãos e conjurar bestas além-planos para o trucidar. Mas do nada, um sorriso amigável surge no velho nibelungo.

- Agora, vamos aos negócios, sim? - Fala ele, descendo os degraus de rocha e encorajando o rei a segui-lo.

(...)

 Thrummaz não vê quando o Nibelungo realizou o primeiro feitiço, só percebe fagulhas azuis-escuros rodeando a estátua. Ele preparava outro gesto intrincado com murmúrios quase inaudíveis.

- Por que não tira essa armadura para lançar seus encantamentos?

 O mago ignora a pergunta do príncipe. Termina a conjuração que torna as fagulhas uma única bola de energia de cor púrpura, a qual parecia estimular a estátua a brilhar mais.

- Os Nibelungos possuem técnicas mais refinadas de magia. - Fala ele. - Armaduras e escudos não nos atrapalham em nada. Isso nos fez valiosos na Guerra.

- Gillibrand eu não autorizei o senhor a começar nada. - O Rei dos Anões observa com autoridade. - Especialmente depois dos seus avisos! Explique o que está fazendo e só depois de nós concordarmos, poderá continuar.

- Tudo bem... - o mago parecia uma criança hiperativa sendo obrigada a parar de brincar. - Eu disse que, maldição ou proteção, a “Concha Púrpura” tem um gatilho para desfazer. O problema seria conhecer este gatilho.

- Sim, nós entendemos até esta parte. - Elger intervém.

- Pois eis a decisão... - fala o mago. - É possível que eu possa tirar a Concha. O problema é: Como o encantamento já está ativo, terei de lança-la em alguém. Seria como um "transplante". 

- Lançá-la?!? Em quem?

- Qualquer um... - fala o mago. - Um transeunte, um de vocês.... Eu mesmo, embora já declare que não aceitarei.

- E ela ficará presa na maldição sem conhecer o gatilho?

- Para não dizer que só trago más notícias... - O Nibelungo novamente despe o braço, mostrando a própria runa tatuada. - O encantamento passará por minha runa, então adotará o meu gatilho, o qual eu sei qual seria. É uma situação mais agradável que a atual.

- E qual é... exatamente... o seu gatilho. - Thrummaz começava a desconfiar do mago. Algo o incomodava.

- Meu gatilho é o padrão.... Ser encontrado por um anão que não me queira mal. 

- Mas isto é fácil. - O príncipe Elger sorri. - Nós três respeitamos um ao outro, daríamos a vida por...

- Não é tão simples, alteza. - O mago interrompe. - Imagine que eu esteja cercado por pessoas que eu confie, mas que me traiam. Num último esforço de sobreviver, eu ativo minha runa. Me aprisiona, mas me permite a proteção de meus circunstantes.

- Eu... Não entendo... - Volthrur confessa a confusão.

- O alvo de minha concha precisa ser ENCONTRADO. Palavras são importante na magia. Vocês todos, e eu também, podemos ser ameaças ocultas. Por isso, o gatilho não funcionaria conosco, que temos consciência da Concha. Nem com nossos agentes pessoais ou a quem falássemos livremente sobre ela. O ideal é largarmos num local ermo e esperar que um anão incauto, mas honrado, o encontre. 

- Isso pode levar anos! - Protesta o príncipe. - Esta burocracia é mesmo necessária?

- Eu faria isso sem hesitar se achasse que minha vida está em perigo. - Fala com certo humor o mago. - Seria um último recurso, mas preferível à tortura ou à destruição. E antes que tenham alguma ideia: Posso acionar a minha runa quando eu quiser, e ao invés de libertar a sacerdotisa, terão duas estátuas em suas mãos. Isso se eu não matar algum de vocês antes de me fechar.

 - Majestade... - o capitão Volthrur se adianta. - Não há honra se usarmos de nossos anfitriões Devilonos, ainda mais inesperados. Por isso, eu me voluntario.

 - Espere, capitão! - O príncipe protesta. - Há outros soldados da...

 - Quanto mais pessoas souberem da condição do gatilho, menos chances temos de que um anão genuinamente bom encontre a estátua. E talvez até mesmo a  “Malho de Cobre” possa auxiliar. A magia é antiga, ela pode ter convivido com esta situação.

 - Volthrur está certo... - Gillibrand acena continuamente enquanto o capitão falava. 

 - Pai, eu sou o Príncipe de Tyrun. - Afirma Elgen. - Os herdeiros da Forjadora deveriam se encarregar da missão. Tenho dois irmãos, um deles mais velho, que cumprirá adequadamente as funções sucessórias. Permita que eu...

 - Nem OUSE! - O rei urra repreensivamente. - Com pesar no coração eu vejo que o capitão é a escolha mais adequada. E terá a eterna gratidão do Trono.

 - Pai... - insistia o príncipe. - Vamos abrir mão de um honrado...

 - Meu filho... - Thrummaz põe as duas mãos sobre os ombros do príncipe. - O Império Áureo marchará sobre Devilon em muito breve. Preciso que você junte um terço da Khro Rym. O terço mais rápido e discreto que puder, e parta a Tyrun. Alerte seu irmão, que deverá reger até eu retornar. Alerte nossos aliados, e que eles decidam pela diplomacia ou pelas armas. Eu e Ynahum Thyrin podemos ter outras paradas, mas retornaremos. E jamais fale o que ocorreu aqui a mais ninguém. Mesmo às cortes. E especialmente à família real.

 - Eu entendo, pai. - O príncipe não mais protesta. Ele abraça longamente o capitão, e parte carregando todos aqueles segredos.

 - Capitão Volthrur, queira postar-se atrás da estátua. - Fala o mago. - E saiba que eu admiro sua coragem e predisposição. Mesmo esperando que o rei fosse ... Esqueça.

 - Só faça o que for necessário. - Rosna Volthrur. Sua vontade era inabalável, mas o nervosismo era inevitável.

 A composição era o oficial detrás da estátua, com o mago nibelungo à sua frente. Mantinha a esfera de energia que conjurou antes à altura dos olhos da estátua.

 A dúvida retorna ao regente. Ele lembra que o Nibelung observou os pés da estátua - onde estavam as runas -; Não participou do posicionamento do artefato - coisa estranha para um ritualista -; E perdeu por alguns segundos o que quer que o mago fazia. Aquele show pirotécnico antes de explicar os segredos da “Concha Púrpura” poderia isolar a estátua?

 - Volthrur... - fala o rei. - Gillibrand chegou a tocar na estátua?

 - S...Sim, meu rei. - Fala o capitão nervoso. - Digo, não, mas estava no ambiente. Digo...

 - Que a forjadora me perdoe por pensar isso... - fala o rei. - Mas e se Ynahum Thyrin usou o "gatilho comum"? E se ela não se sentia segura com os filhos de Tyrun? Com os herdeiros de Forjia?

 - Então, majestade... - Gillibrand fala com uma rizada débil entre os dentes. - Ela se sentiria à vontade diante de um Devoto de Donaire, o Deus legítimo da Magia!

 Antes de qualquer reação, Gillibrand desfaz o teatro. Ele toca o peito do artefato, e estende a mão espalmada, de onde uma esfera rubra com a runa idêntica à tatuagem brilhava mais incandescente. A esfera vai na direção de Thrummaz, e não de Volthrur.

 Dalí, tudo correu de forma lenta. O Rei dos Anões sentia seu corpo frio e duro. Irradiando do peito, e em segundos suas pernas estavam rijas. Via a Sacerdotisa dar uma golfada profunda de ar e ligeiramente se ver livre. Volthrur partiu com machado em riste contra Gillibrand, mas um escudo projetado da armadura do nibelungo amortecia boa parte do golpe.

 Queria lutar. Sacar seu martelo e apoiar seu capitão, mas seus olhos ficavam semiopacos. Os lutadores eram vultos agora, e mudavam de posição tão caoticamente que o rei não sabia quem era o capitão, quem era o traiçoeiro Nibelung.

 E então, A recém revivida Ynahum Thyrin golpeia alguém com seu malho de cobre. Uma luminescência interrompe a luta.

 Dois estavam lá, diante da estátua do rei. Ele não podia ver ou ouvir, mas de uma forma estranha, podia sentir.

 Mas depois disso, sonhos sem sentido tomavam sua mente. Distraíam-o mas não permaneciam na memória muito tempo. Como se fossem dois ou três minutos de delírio, e a gravidade finalmente volta. O Rei dos anões sente seu corpo cair ao chão.

- Eu fa-fa-falei que e-ele iria que-quebrar! - Fala uma voz com gagueira, mas com confiança. 

- Eu só toquei nela! - Outra voz, mais próxima e firme, embora urrasse em defensiva, retruca.

 Era um lugar iluminado, como um templo a céu aberto. A visão turva de Thrummaz viam quatro vultos, Um deles, uma mulher alta, envolvente e esguia. Algo em sua mão emitia de tempos em tempos labaredas rubras que dançavam em seu braço.

- É... A Forjadora.... - Fala o rei delirante. - Hannah, eu achei você.

- Oh, que bonitinho! - A mulher ajoelha-se e se aproxima do anão caído. - Ela acha que eu sou sua deusa, Tholen! - Era uma humana usando vestes leves. Thrummaz estava certo após segunda análise que ela poderia ser qualquer uma, menos a Forjadora.

- Um nobre reconhece outro. - Fala o último do quarteto. Um homem esguio com pouca armadura fora vestes de viagens verdes, mas com armas embainhadas à mostra. - Senhor, eu sou Geen Nobunada, Hatamoto de Wen-ha. O senhor está fora de perigo.

 Thrummaz recompõe-se, ainda com sentidos abalados.

- O senhor falou Wen-ha... - comenta o rei. - Perdão eu desconheço esse nome...

- Co-como assim? - Protesta um muito jovem próximo a Nobunaga com semblante semelhante ao nobre, aos olhos do rei anão. - Wen-ha éé-é um dos gra-grandes re-reinos! Que no-nobre dedesconhece nosso reino?

“Grandes reinos”. A fala do magistrado Kype vem à mente do rei. 

- Um nobre que era nobre antes de Wen-ha se revelar ao continente. - Thrummaz era treinado. Sabia quando um intruso tentava ler seus pensamentos, mas a humana o pegou em um lapso momentâneo de fraqueza. - Um nobre com uma mente de concreto, ouso dizer. - espanta-se a humana.

- Eu exijo... que.... - Thrummaz tentava dar ordens e impor seu título, mas eventualmente admite a si mesmo que era o menos consciente naquele momento a tomar ordens. - Perdão.... Eu estava preso, e devo ter sido solto por um anão que...

 Enfim, ele centra os olhos em um ser de estatura próxima à sua. Usava armadura pesada e uma longa barba - que o incomodou. Mas era um anão, o único que poderia ter o libertado.

- Mas você é um anão de Dol'oan! - Exclama surpreso o Rei.

- Sou o Viajante, meu caro. - Fala o anão, como se aquela alcunha bastasse. Ele parecia rústico, mas desconcertantemente animado com a visão do rei. - Sou Tholen da Torre do Martelo.

- Como Therin ... - lembra o rei. Tinha encontrado fazia poucos dias, em sua perspectiva. - Apesar de nossa diáspora, eu não sou seu...

- Você conhece meu avô? O Fundador de Dol'oan?!? - Tholen sorri. – Fale mais, veterano! 

- O que e-e-ele fez com no-nosso anão? - Estranha o infante de vestes verdes, tatuagens e cabelos espetados. - Nu-nunca vi Tho-tholen sorrir a-antes!

- O anão gosta de encontrar outros como ele, Midori. - Comenta Nobunaga, apresentando uma bota de bebida ao rei.

- Tholen... - a humana adianta, apontando sobre os disfarces. - Ele usa uma flâmula muito antiga. Eu não a reconheço, mas já vi paródias delas em velhas casas anãs. 

- Eu sou eternamente grato a vocês. - Fala o regente, aceitando a bebida, uma agua ligeiramente azeda que talvez tivesse álcool, mas jamais bastante para impressionar um anão. - Não sei o quanto meu nome vale hoje... Mas eu sou Thrummaz de Tyrun, rei dos anões.

 O trio de humanos se entreolham, e depois encaram Tholen.

 - É uma honra ter o reencontrado, majestade. - fala o anão, com pesar na voz. - Mas creio que após quatro séculos, o senhor é rei de nada.


[Conto] Thrummaz - o Rei Anão - Parte II

► Veja a Parte I

A armada Khro Rym foi temporariamente rebatizada como a Guarda Pessoal de Thrummaz de Tyrun, rei dos anões. Isto porque agora seus quarenta e cinco guiavam Thrummaz e seu segundo filho, Elger. 

 Agora, esta competente comitiva via-se barrada por cinco cavaleiros de Devilon. 

- Sou o Magistrado Romaz Kype. - Informa ele. - Informe sua identidade e intenção.

Thrummaz adianta-se ao humano jovem e de aspecto ansioso, adornado como um Magistrado - membro de uma das antigas ordens de Yius, Deus da Justiça, que uma autoridade local teria nomeado como julgador e mesmo delegado. Usava a flâmula de Devilon, uma cidade-estado de médio porte já além da Cordilheira do Ouro, consideravelmente próxima da Aliança vassalar de Lyon.

- Magistrado Kype sabe muito bem quem eu sou. - adianta o regente. 

- Quis manter formalidades, majestade. - A explicação parecia mais uma desculpa. Contudo, devotos do Deus da Justiça jamais mentem. 

- As formalidades indicariam que eu fosse recebido no palácio de seu regente, o Coronel Dyomaz, regente de Devilon. Ou ao menos que víssemos seus muros.

- O senhor não deve ir ao Palácio, majestade. - fala enfim o Magistrado, recolhendo a voz. - Eu posso ... escoltar seus homens ao Norte, onde temos um pomar abundante e providenciarei o que precisarem para uma boa estada.

 O capitão Volthrur não consegue esconder um sorriso zombeteiro. Khro Rym era uma força militar bastante para tomar a cidade, e a resistência que encontrou até aquele momento eram cinco humanos a cavalo. Mas mantém o silêncio. Deixou seu rei cuidar das conversas.

- Devo deduzir que alguém está no Palácio... - pondera Thrummaz. - Alguém a quem não seria conveniente nos ver.

Kype não tinha mais rodeios para a informação.

- Esta manhã recebemos uma comitiva do Império Áureo. - Fala enfim. - E não há dúvidas que seu intento é a ... Posse.

- As fronteiras do Império estão muito longe daqui! - Príncipe Elger intervém. - Tem as florestas dos centauros e as pradarias dos minotauros entre eles, e Icátia fecha o contorno no Norte. 

- Dois Minotauros compõem a comitiva que chegou hoje. E trigo dos Centauros alimentam a campanha auriana a Icátia. Eles podem contornar o Bosque do Desespero pelo Norte ou pelo sul, e tudo o que separa seu reino e a capital de Lyon das armas do Império somos pontos de luz como nosso reino e a Marca de Katzoplis. Não é esse o assunto que os trouxeram aqui?

Elger e Volthrur se entreolham com a notícia. Estavam certos que tanto centauros quanto minotauros seriam uma campanha militar de anos para o invasor oriental. Icátia e Devilon agora eram os últimos reinos não-assimilados por Áureo III... Icátia conta com defesas consideravelmente simples e tradição belicosa minguada. Devilon, era um terço do que quer que Icátia fosse.

- Nosso assunto é outro, Magistrado. - Fala o rei. - Aceitamos que minha guarda pessoal acampe fora das vistas dos seus convidados. Mas quero ir com uma carroça visitar um de seus súditos, e estou disposto a ocultar minha identidade, se for do desejo de seus mestres.

- S...Sua compreensão é nobre e de grande consideração, Majestade. - Fala surpreso e incerto o magistrado. - Por favor, sigam-nos ao norte primeiro. De lá, estejam livres para seus assuntos. Só não partam antes de serem adequadamente recebidos pelo Coronel Dyomaz.

 A comitiva seguiu por uma estrada secundária pouco usada, cujas moitas duras começavam a tentar tomar de volta o terreno. Obviamente cruzar a cidade era o mais prático para viajantes rumando ao norte, coisa que não era do intento de Devilon nem da coroa de Tyrun. O rei e seu filho recuaram ao quarto retaguarda, onde uma única carroça era o veículo principal, exigindo cuidado redobrado do destacamento Khro Rym para vencer os obstáculos. Isso devido ao artefato que traziam, enrolado como podiam para ocultar sua silhueta e proteger dos solavancos e intempéries. 

- Senhor meu pai... - sussurra príncipe Elger. - Talvez devêssemos enviar notícias a Lyon e a nosso reino. 

- Hein? - O rei parecia distraído, mas logo se inteira do que falava seu filho. - Sim... sim. Mas nossa missão é sagrada, meu jovem. E considerando Devilon e o Forte das Armas, gente demais sabe de nossa comitiva. Se interceptarem um mensageiro nosso pode criar incógnitas demais.

- Bem... - Ponderava o príncipe dos anões sobre o dever para com seus aliados humanos e a missão. - Daqui retornaremos para Tyrun?

- Vai depender de Gillibrand... - O rei sussurra um nome que o incomodava. O príncipe entende e decide se calar.

(...)

O assentamento improvisado foi levantado em uma clareira de macieiras. Magistrado Kype autorizou o consumo, embora faltasse alguns dias para as frutas estarem aptas para a colheita. Também ditava as leis quanto à caça na região. Thrummaz de Tyrun perdeu essas particularidades, preferindo se preparar para o ingresso em Devilon. Decidira ir acompanhado apenas do príncipe e do capitão Volthrur com a carroça do artefato. Usavam vestes mais simples de couro adquiridas em Odnenga cinco dias antes, mas com peças segmentadas com as flâmulas por baixo para o caso de precisarem se identificar.

 A cidade-estado humana era murada com rocha. Estavam já longe da cordilheira, mas era fácil deduzir que um veio mais irregular estava ao alcance dos primeiros colonizadores humanos que fizeram o reino. Usavam um portão para o norte, menos propicio a viagens muito além dos pomares, o que tornava a passagem discreta. A cidade velha era centrada no castelo, na posição oposta à entrada do pomar. Isso os colocavam em bairros mais residenciais da cidade, o que era conveniente.

 Kype não teve dificuldade em orienta-los ao seu destino, afinal, era um ponto de referência. "A casa do único anão de Devilon".

 As estradas de pedras irregulares incomodavam o rei. Mesmo em fortes distantes de Tyrun tal descaso funcional com o elemento era de embrulhar o estômago. Por isso, a casa quadricular que encontraram parecia aliviar um borrão em seus olhos. O trabalho inteiriço da rocha, perpendicular com a discreta calçada elevada para evitar enchentes das ruas, e mesmo a adoção de detalhes em madeira para o telhado de talas ligeiramente projetadas fazer sombra na face leste da construção eram cuidados definitivamente anões.

 Mas o proprietário não era alguém que, em circunstâncias normais, o rei dos Anões gostaria de encontrar.

 Como se soubesse que o procurariam, ou uma coincidência na rotina dele, Gillibrand abre a porta pouco antes dos três anões se aproximarem. Ele sorri um pouco, vendo os três forasteiros patrícios. O anão era consideravelmente velho, com costeletas cheias e brancas como algodão, mas sem barbas. Também era calvo, mas ocultava isso com uma touca grossa e vermelha. Sua túnica era adornada por um cinto que se pendurava em seu ombro e fazia vezes de condão para uma bolsa maior, no momento vazia.

 Mas um detalhe ignorado pelos vizinhos e conhecidos da comunidade humana de Devilon: Gillibrand era da linhagem Nibelung. Pode passar por décadas pelo escrutino dos circundantes, mas qualquer anão percebe imediatamente aquela condição. Aos olhos anões, as orelhas e o nariz eram muito amplos... Mas humanóides tinham percepção similar dos filhos de Tyrum, e não diferenciavam.

- Ora o que temos aqui... - sua voz era falha e rouca, trazia um pouco de humor, embora sua expressão demonstrasse que ele estava ciente da reação dos forasteiros. - Vocês podem não acreditar, mas é bom ver alguém como eu após tanto tempo...

- "Como você?" - Elger de Tyrun fala com certo desprezo. Houve algumas cismas ideológicas entre linhagens anãs no último século, mas nada como a dos Nibelungs. Eles se aliaram ao Deus enlouquecido durante a Guerra da Magia.

- Devo deduzir que isto é o que? - Ele sussurrava, mas mantinha um ar divertido na voz. - Uma limpa genealógica? Eugenia? Alias... como me encontraram?

- Nunca perdemos você de vista. - Agora Volthrur quem falava. - Você em particular desertou da Tropa Dhizir 12. Não era um combatente..., mas jamais lhe demos confiança total!

Gillibrand olha para os lados e para os prédios próximos a sua casa, quase como se tentando adivinhar qual dos vizinhos era um espião de Tyrun ou do Castelo de Ferro. Mas sem muitas pistas, volta para o trio.

- Eu preparei geleia e conserva de cogumelos. - Fala ele com leveza, dando as costas ao grupo e fazendo como se fosse entrar de volta à sua casa. - Se viessem alguns dias mais tarde, no período da colheita, teriam uma recepção mais farta... Mas não creio que irão reclamar ...

- Nós não viemos para um banquete... - Elger adianta-se e estende a sua mão ao ombro do nibelungo. - Você tem que responder a...

 A mão veloz de Volthrur detém a do príncipe poucos segundos antes dele agarrar as túnicas de Gillibrand. O nibelungo cessa seu caminhar em silêncio, olhando por cima do ombro. O príncipe fica paralisado em choque com a reação do capitão, e então percebe o porquê.

 A mão encoberta de Gillibrand crepitava com uma energia escarlate. Gillibrand era um mago, um ser raro na época, ainda mais na raça anã, e o que quer que ele tivesse preparado, vitimaria o agressor sem dificuldade.

- Cessem as hostilidades! - Thrummaz ordena, como só um rei o poderia. Ele descobre a peça de ouro que trazia sua flâmula e ostenta-a ao mago. - Tyrun tolerou sua existência porque, a despeito de sua linhagem, não agrediu a lei dos anões e a lei dos Deuses. Agora, Tyrun vem a você buscando um pouco mais que sua omissão, mestre Gillibrand de Skelos.

 Gillibrand suspeitava da identidade do rei, mas não tinha certeza. De qualquer forma, aqueles três conseguiram sua atenção. 

- O que poderia alguém como eu auxiliar, ó emissários de Tyrun?

 Thrummaz meneia a cabeça na direção da carroça. Volthrur sobe nela, e usando as cobertas, mantém oculta, mas posicionava o artefato de pé. O mago caminha desconfiado até o volume. Ele levanta um pouco o pano, expondo brevemente a base e o pé do artefato. Como se confuso, observava o contorno das mantas, medindo e certificando-se da altura da estátua, embora jamais visse completamente.

- Onde acharam isto? - Pergunta o nibelungo.

- Em um lugar menos que honroso. Basta saber disso... - fala o Príncipe. - É uma pobre amaldiçoada pela magia de sua linhagem.

- Isso não é uma maldição. Talvez seja... Não necessariamente. - Ri Gillibrand, cobrindo cuidadosamente os pés do artefato, como se entendesse o motivo do sigilo. - Essa é a “Concha Púrpura” . Um mago pode lançar sobre si mesmo, como último recurso. Dentro da Concha, o tempo passa devagar. A carne que se torna rocha é quase que indestrutível. E, por fim, há sempre um gatilho.

- Gatilho? - Exclama Volthrur.

- Veja... - Gillibrand começa a enrolar a manga de sua túnica, até expor a pele abaixo de seu braço, mostrando uma tatuagem de cor similar à do artefato. - Não é uma magia tão secreta, ao menos dentre os Nibelungos. E antes das grandes cismas, quando Nibelung trabalhava por Fórgia, podíamos ter presenteado pessoas importantes com a marca ou uma varinha preparada. Se nossas vidas estiverem em perigo, acionamos a runa da “Concha Púrpura” e esperamos o gatilho ser acionado.

- Você falou de "gatilho" de novo! - Reclama Elger.

- Oh, perdão... - O nibelungo parecia mentalmente confuso. - Varia de situação. Gatilho é um termo para uma previsão de acxionamento ou cancelamento de um encanto. O mais tradicional é quando a estátua é encontrada por outro anão... E que este não queira mal ao protegido, a Concha se desfaça.

- Está dizendo que ... A pessoa presa nesta forma fez isso espontaneamente? - Thrummaz se espanta.

- Não disse isso. - Censura o mago. - Para uma corruptela na magia a tornar uma maldição contra a vontade, é consideravelmente simples. Mas se soubermos o gatilho que abre a Concha, ela volta a vida como se tivesse um sono de pouco mais que horas ao invés de séculos.

- Ela não despertou quando nós a encontramos... - pondera Thrummaz. - Devo supor que o "gatilho" comum não é o caso. 

- Isso pode ser um problema... - ri o mago. - Só quem conjurou saberia qual o gatilho adequado. Pode ser uma palavra mágica, uma peça específica... um indivíduo em particular... E se o conjurador for mais criativo que eu, pode ser algo que eu não descobriria nem abstraindo.

- Então... a pessoa está perdida na rocha? - Thrummaz pergunta, temendo a resposta.

- Talvez não. - O anão esfrega as sobrancelhas ralas. - Tenho algumas alternativas em mentes. Não agradáveis, mas... se libertar esta pessoa é importante para vocês, creio que até tolerem o preço...

- Senhor... - Volthrur debruça-se sobre o ouvido do rei Thrummaz. - O que quer que seja, aqui na rua não é o melhor lugar para nos determos... Ainda mais com emissários aurianos nas proximidades.

 O rei concorda discretamente.

- Nosso abrigo fica no pomar fora da cidade, mestre Gillibrand. - Fala o rei. - Poderia nos acompanhar até lá?

- Pelo contrário. - Fala o Mago. - Tudo o que preciso está no meu porão. Precisarei de coisas do meu sótão... e sou um velho frágil. Vocês, mais vigorosos, levem a estátua ao círculo rúnico do porão, e eu em breve os encontrarei.

20 de fevereiro de 2018

[Conto] Thrummaz - o Rei Anão - Parte I


Mesmo após quase duas semanas de cativeiro, algemado de pé rente ao muro, o porte majestoso daquele anão ainda se mantinha. Vestia um trapo na cintura cobrindo sua virilha, meio que uma tentativa de "pudor" dos cativos. Talvez, mesmo no meio dos orcs, havia alguma reverência ao veterano combatente, ao Rei dos Anões.

Thrummaz de Tyrum, que regia quando Tyrum ainda ostentava bandeiras e glórias da batalha que levou ao que chamamos de “Nova Era”, sabia dos riscos, mas achou que sua presença poderia ser um fator definitivo na negociação. Mas os orcs viram a oportunidade e não hesitaram. A guarda pessoal do rei era composta de cento e cinquenta guerreiros, mas foi emboscado por cinco vezes esse número. Somente o rei e o príncipe foram poupados, embora as perdas dos orcs tenham sido consideráveis.

O Rei Anão estava sujo, mas não ferido. Seu vigor racial e sua moral talhada por meia-vida anã de lutas e treinamento o garantiriam quase que indefinidamente. Sua barba rala começava a ficar espessa, e isso o incomodava moralmente quase tanto quanto as ausências de Elger, seu filho, que o acompanhou.

Após duas horas, um orc aparecia. Já o tinha visto antes... Era menos bruto que o normal, mas considerando seus adornos metálicos deveria ter algum status entre os demais. Talvez fosse de alguma "nobreza", ou pelo menos mais vaidoso que os guerreiros com suas cicatrizes, partes do corpo faltando, ou adornos de peças ressecadas de suas vítimas.

Ele abre a jaula, prende uma corrente à canela do príncipe, e fecha a porta.

O rei analisa seu filho. Escoriações de golpes contundentes. Era de certa forma um alívio que os orcs não possuíam práticas de torturas, pois o príncipe Elger, segundo filho da Casa de Tyrum, era jovem e forte. Estaria novo em folha até o fim da tarde.

- Eles arrancaram um dente meu. - Fala o príncipe. - Deve ser para enviar como prova que estamos aqui e vivos.

- Tolos. - Ri o rei. - Eles enviaram um item para nos rastrearem. Precisamos resistir um pouco mais, meu filho.

 Talvez no seu íntimo Elger esperasse que seu pai demonstrasse mais preocupação por suas torturas diárias, e o fato de não torturarem o rei fazia o jovem anão ficar preso num paradoxo emocional entre o alívio e a inveja. Era humilhante estar impotente entre aquelas bestas. O príncipe chegava a salivar pensando na possibilidade de massacrar cada um daquelas criaturas. Mas o experiente pai disse que uma oportunidade seria rara, e não poderia ser desperdiçada.

 O Rei, contudo, ponderava. Preferiam que tentassem o torturar. Ou ao menos viessem zombar dele, para ele tentar negociar e mesmo fracassando entender qual a posição de seus captores. Precisava do artefato que o levou à tribo de Odnenga, escondida na secção oeste da Cordilheira do Ouro, território do Império Áureo. Precisava ocultar sua jornada pessoal para não levantar questionamento dos aurianos ou mesmo de Lyon. Jamais provocaria incidentes tão desconfortáveis se o artefato não fosse tão importante.

 Foram dois anos de negociações secretas. Presentes de valores obscenos enviados. Enfim, a visita de um rei deveria reafirmar a boa-vontade de Tyrum com seus inimigos ancestrais, mas não estavam tratando com seres honrados, nem mesmo negociadores competentes.

 Os cativos, rei e príncipe, preparavam-se para um décimo terceiro dia tedioso - em uma hora chegaria a sopa imunda, que o príncipe tomaria uma parte e alimentaria o pai amarrado com o resto, dormir como pudesse, e novamente a tortura com os primeiros raios do sol da manhã - quando algo mudou a rotina. Barulho por toda a caverna que os orcs usavam como prisão. Cheiro de fumaça e sangue no ar. Era uma batalha.

 O mesmo orc vaidoso de antes corre caverna adentro, com uma faca enferrujada nas mãos. Ele berrava algo em seu idioma, e destrambelhadamente tentava desenrolar um molho de chaves amarrado em uma pele que fazia vezes de uma toalha de mesa.

 Pai e filho acenaram, instintivamente, reafirmando sua cumplicidade e preparo para a próxima ação.

 Ignorando isso, o orc apressa-se à jaula. Estende a faca para o príncipe Elger e com a mão esquerda destrancava a porta da jaula.

"Canhoto!" - Observou Thrummaz mentalmente.

 A criatura então adiantou-se contra o príncipe. Este, depois de dias de relativa submissão, projetou-se em um encontrão no limite que podia com a corrente em sua perna. O orc cambaleou para o fundo da cela.

 Thrummaz usou as correntes para içar-se a altura suficiente para que com suas pernas envolvessem o pescoço do orc em uma chave. Ao mesmo tempo que sufocava a criatura, agarrou a mão esquerda da criatura com a sua própria e com a direita apertava o excesso de corrente reforçando a captura. O orc estava com a mão direita livre e com uma faca, mas não conseguia ângulo para esfaquear o rei com a mão inábil.

 Sabendo que a diferença de força entre o rei e o monstro impedia que tal manobra se sustentasse, Thrummaz concentrou-se em arrancar o molho de chaves da mão do orc. Ele torceu e mordeu, e enfim, o molho escapuliu. Com um ousado lance, o molho pousou nas mãos do príncipe Elger, que por dias estudava aquelas chaves e sabia exatamente qual livraria sua perna.

 Urros vinham do interior da caverna. Algum reforço ou patrulha se aproximava. Podia ser um caminho para o subterrâneo, ou uma guarnição reserva. Era um fato desconhecido e que aumentava a urgência dos anões para a fuga.

Elger tomou com facilidade a arma do orc. Mesmo enfraquecido pelas semanas de cativeiro, percebia em combate que era superior ao seu captor, e triunfaria mesmo sem a imobilização providenciada por seu pai. Mesmo querendo terminar a vida da criatura, o príncipe se conteve a tirá-lo de combate para libertar seu pai. Precisariam lutar para sobreviver, e o tempo era incerto.

 Os urros dos orcs vindos do interior da caverna aumentavam gradualmente, mas logo foram abafados pelo urro de um único anão.

 Rei e príncipe só viram um borrão. Era um anão de cabelos e barbas castanhas e longas, com armadura pesada, um martelo de pedra rúnica em uma mão, um enorme escudo torre na outra. Não reconheceram flâmbulas ou cores nesse guerreiro intruso. Ele partiu como uma fera furiosa, mas assentou num gargalo da caverna. Enterrou com força sobrenatural o enorme escudo quase tão alto quanto ele mesmo à sua esquerda, e tomou para si o pouco espaço á direita que restava. O rei reconheceu a Postura dos Defensores de Dol'oan.... Aquele guerreiro não arredaria o pé daquele lugar, e ai de quem tentasse passar...

 Por cima da cabeça do anão, um virote de Besta passou na direção dos orcs, minguando quem avançasse contra o defensor. Um segundo anão se aproximava dos cativos. Este, Thrummaz e Elger reconheceram logo.

- Volthrur! - Comemorou com alívio o príncipe. - Que a Forjadora o abençoe!

 Volthrur era o capitão da Khro Rym, guarnição de elite das forças miliciais de Tyrun. Seus quarenta soldados eram tão bem treinados que não havia dúvida ao regente que triunfariam onde os cento e cinquenta da Guarda Pessoal fracassou.

- Que a forjadora abençoe o Rei e o Príncipe! - Responde o capitão. - Ajude-nos, Mestre Castelão!

 Aquela alcunha surpreendeu o rei mais que a emboscada dos orcs. Além do misterioso guerreiro que sozinho interrompeu o avanço dos orcs interioranos, outros dois anões acompanhavam o capitão da Khro Rym. Este recém-chamado, possuía um porte majestoso que rivalizaria com o próprio Thrummaz... E que seria o último que imaginaria agindo em seu benefício.

- Belkarl do Machado Anão - o rei fala com espanto palpável. - O que ... quem solicitou seu apoio?

 O Mestre Castelão era o líder dos Anões do Escudo. Aquilo explicava o Defensor de Dol'oan que irrompeu a caverna. Mas os Anões Escudos deram as costas a Tyrun faziam décadas, rejeitando as determinações raciais e religiosas dos herdeiros de Forjia. Belkarl deixa um hiato de silêncio. Talvez gostasse de deixar o rival pensando no preço daquele apoio inusitado. Mas o Mestre Castelão deixa de lado a rixa.

- Seu filho mais velho e seu capitão não fizeram nada que você precise se envergonhar, majestade. Seu cativeiro é sigilo ainda aos olhos do mundo. - Fala enfim. - Só os orcs não souberam guardar segredo dos guardiões das Torres das Armas a quais eu sou regente. Decidi interceptar Khro Rym e guia-los pelas montanhas mais propriamente.

- Sua armada está aqui? - Pergunta o príncipe.

- Não. O Forte das Armas não trata com Tyrum. - Belkarl dá espaço para que Volthrur entregasse cobertas para os dois nobres cativos. - Eu fui "voluntário". Não é sempre que você participa de uma campanha para salvar um rei. Mas trouxe comigo meus dois melhores guerreiros...

- Eu conheço ele... - Elger aponta para o guardião com escudo, que retornava de sua posição no interior da caverna, embora ainda não reconhecesse o martelo negro como heráldica. Era visivelmente um guerreiro anão testado em combate, com longas barbas que mostrava despresar a Ordem do Luto, e que triunfou sobre os monstros das cavernas com a ajuda da Besta Pesada em poder de Volthrur a superar sua muralha de aço e carne. - É Therin Dueguir do Clã Mercenário!

- Therin da Torre do Martelo hoje. Líder da Torre do Martelo. - Corrige o Mestre Castelão, reforçando que aliciara aquele grande campeão para sua facção. - ... E este é o Paladino Bufir da Torre do Martelo, filho de Therin.

 O jovem anão, terceiro daquele grupo avançado, portava uma maça mas trazia a mesma flâmbula e um martelo de batalha preso ás costas. Ele se ocupava até então com a entrada da caverna enquanto seu pai e os outros dois asseguravam o domínio do calabouço. Mas com o triunfo, aproximava-se do regente, com um brilho sagrado nas mãos.

- Não necessito de cura. - Fala o orgulhoso rei, reconhecendo o Poder restaurador. - E o príncipe de Tyrun também não requer nada a não ser uma arma e um escudo. Assim como eu.

- Será uma honra, Alteza. Majestade. - Fala o capitão com um aceno reverencial. - Quais as ordens? Recuo ou subjugar os inimigos?

- Meu rei... - fala o Príncipe. - Essas criaturas ousaram nos aprisionar! Devem pagar com seu sangue!

- Essas vinganças não são o costume de Tyrun... - Belkarl comenta com certa ironia na voz.

- Não... não o é. - Thrummaz concorda, mas avalia que aquele ataque covarde podia ser interpretado como fraqueza para os anões. Também tinha o fato de uma operação como aquela não-autorizada pelo Império Áureo, perguntas do trono de Lyon as quais não queria responder, e o segredo do artefato. Belkarl mesmo demonstrou que aquela tribo deveria ser silenciada. - Mas é o que faremos. Capitão Volthrur, nenhum orc adulto deve sair vivo desta montanha.

(...)

 A elite Khro Rym tinha força e treinamento para suplantar aquela tribo marcial, especialmente porque os orcs jamais se recuperaram completamente do confronto com a Guarda Pessoal do Rei. Mas guiados pelos três anões escudos que conheciam melhor aquelas montanhas, seu ataque foi devastador. Quando o rei surgiu e juntou-se à batalha, aqueles 45 soldados passaram a lutar como se fossem mil.

 Não houve baixa por parte do Khro Rym. As barracas da superfície da tribo foram incineradas. Os totens da tribo derrubados e destruídos. Os Odnenga foram condenados a serem esquecidos da história.

 E seu tesouro, deveriam ser saqueado.

- Por aqui... eu já estive lá. - O príncipe Elger guiava o rei e o capitão. Eles tentaram desestimular que o Mestre Castelão os seguissem. Apesar de ele alegar não querer recompensa, sua insistência em ver o prêmio era impossível de dissuadir.

- Eu soube que o príncipe fez os primeiros contatos... - comenta Volthrur. - Chegou a vir ao cofre das criaturas antes da captura?

- Sim... eu e seu filho, Ythrun negociávamos antes da traição. - Confirma o príncipe. - Sinto que ele não tenha sobrevivido.

- Ele está com Othen agora. Orgulhe-se. - fala Belkarl. Os anões escudos não se entristeciam com a perda de heróis em combate.

- Ainda assim, pais enterrarem filhos é um evento de pesar e respeito. - O rei Thrummaz perdia a paciência com aquela aliança, e nenhuma gratidão poderia atenuar a falta de respeito daquele proscrito.

- Só estou comentando. Eu só tenho admiração por um soldado leal que deu a vida pela sua família real... - comenta sem muita mudança de tom.

- Perdão, majestade... - O capitão Volthrur manifesta-se com respeito. - Mas eu concordo com o Mestre Castelão. Carrego tristeza sim, mas orgulho da coragem de meu filho.

 O rei media em silêncio se aquelas palavras eram mesmo verdade ou se seu capitão tentava a diplomacia entre dois que clamavam a regência do povo robusto.

- Aqui... chegamos.

Era uma alcova mais larga, iluminada com dispensáveis tochas, com um par de baús simplesmente largados no chão, transbordando peças de metais preciosos, alguns dos presentes que os orcs receberam nas primeiras negociações, e a estátua.

 Era uma estátua de anã anciã, com roupas antiquadas, e face severa. Ela usava o Malho curto pesado, símbolo das sacerdotisas de Hannah. O material que compunha a estátua era cinza com tons de roxo. A base possuía runas com discreta luminescência púrpura.

- Este é o artefato. - Anuncia o príncipe. - Como aquele bardo élfico falou.

O Rei Thrummaz ajoelha-se até a base e estuda com cuidado aquelas inscrições.

- Tudo isso por uma estátua de pedra semipreciosa? - Resmunga o Mestre Castelão.

- Caro mestre Belkarl... - O rei fala com um tom de humor na voz. - Já viu trabalho de escultor tão perfeito assim?

 O Anão guerreiro decide prestar melhor atenção. Ele reconhece detalhes intrigantes. Primeiro, a diferença visível da textura da pele, da arma e do tecido. Depois detalhes ultrarealísticos das rugas e bolsões dos olhos. Mesmo alguns fios de cabelo imperfeitamente penteados destacavam-se da cabeleira da "obra".

- Esta é uma criatura petrificada?!? - Espanta-se Belkarl. - Quem é ela?

- Ynahum Thyrin. Malho de cobre. Minha tia-avó de quarto grau... E última sacerdotisa de Hannah. - O Rei Thrummaz levanta-se e encara Belkarl. - Ela foi designada antes do sacrifício da deusa a guardar informações pessoais da própria Forjadora. Ela se escondeu por cem anos até que dissidentes dos magos a encontraram e aprisionaram nesta forma que você vê.

 Belkarl demonstra em seu semblante duro e desafiador uma mudança surpreendente. Um pesar respeitoso pela figura histórica. Mesmo assim, alfineta.

- Sabe que os orcs pediram Resgate por você e seu segundo filho, não? - Comenta. - Orcs da época de nossa juventude, com as mãos em um rei anão, o estraçalharia no ato. Usaria seu crânio como adorno e suas barbas como tecido. Até os Orcs mudaram com o novo mundo.

- ... E você está achando que deveríamos fazer o mesmo? - Interrompe iradamente o príncipe Elger. - Esquecer a Forjadora? Nosso voto? Se entregar nossa honra da mesma forma como o senhor...

- Chega, Elger. - Repreende o rei anão antes que o príncipe passasse dos limites do respeito.

- Admito que tinha conceitos errados da força de Tyrun. - Fala o Mestre Castelão. - Eu vi com satisfação Khro Rym em combate. Tal qual seu capitão, seu rei... E seu príncipe. - O Mestre castelão, combatente mais experiente, faz da aprovação uma indulgência ao jovem com a pausa desnecessária. - Sei que a Malho de Cobre pode trazer a história gloriosa de uma época em que éramos um povo só e enfrentamos o que julgavam uma guerra perdida. Mas sua tia-avó não viu o desfecho da batalha. Não acredito que possa indicar a Forjadora... Ainda mais dependendo de quantos séculos ela ficou presa como uma estátua.

- O que sugere o Mestre Castelão do Forte das Armas? - O rei fala com ironia.

- Você sabe o que eu sugiro! - Belkarl perde a compostura por um segundo. - Que trate a queda da Deusa como um momento de glória. Do sangue e da fé dos anões que foram usados para estocar o coração do deus lunático!

- Hannah deu mais que sua alma, Belkarl. - Thrummaz de Tyrun tivera aquela mesma discussão com adoradores de Othen por quase toda a sua regência. Estava estafado de sempre lembrar isso. - A Deusa não está nos Campos de Guerra de Othen, como deveria ser o destino daqueles que conseguem a glória na batalha. Ela ficou em Meliny, e aguarda que nós a encontremos!

- Não comemore sua morte, comemore sua vida! - Retruca uma última vez o Mestre Castelão. Mas enfim, dá as costas e prepara-se para partir. Conforme afirmou, não queria tesouros ou sequer agradecimento por sua colaboração no resgate do rei. Mesmo não sendo mais súdito, jamais deixaria a nobreza anã nas mãos de orcs.

Mas talvez, se um dos dois regentes não fosse tão orgulhoso, perceberia que o Mestre Castelão almejava ser uma única família outra vez.

Os passos pesados de Belkarl ecoavam pelas cavernas desertas. Três ficaram ante o Artefato, os tesouros anões recuperados, e o excedente de Odnenga. A guarda Khro Rym deveria fazer as vezes da guarda pessoal do rei, e ainda guiar aquele saque pelas montanhas, em segredo do império e de Lyon, até o trono de Tyrun ou alguma casa aliada.

Mas aos comandantes da empreitada, a próxima etapa os incomodava: Seria a quebra da maldição que aprisionava Ynahum Thyrin, Malho de cobre, a última serviçal pessoal da Deusa dos Anões...

E as runas deixavam claro: Precisariam de magia anã Niebelunga.

26 de setembro de 2017

Meus arquivos de Meliny

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1 de junho de 2017

O Perverso Narrador



Eu narrei pelo MIRC em algum momento dos anos 90 uma partida de RPG que era crueldade, mas servia para demonstrar o quão fraco é o roleplay dos jogadores médios, afinal eu era "o fodão" que sabia de tudo, certo?... Mas mesmo para meus padrões eu me surpreendi.

Lembro que estavam numa sala e pediram alguém para narrar. Queriam jogar "Caçadores de Vampiros" para 3d&t. Basicamente, seres com poderes por motivo de "razões" que iam atrás de Vampiros, seguindo o suplemento da White Wolf. Entranhei terem pedido o 3d&t, logo, deduzi que eles pensavam apenas na parte violenta do jogo, perdendo totalmente o foco do “Terror pessoal” e da “Narrativa”.

Então, rascunhei uma ideia em mente e a apliquei para ver até onde eles iam.

- Vocês são caçadores de vampiros, certo? Odeiam vampiros porque mataram algum parente, ou destruíram uma cidade... (coisa bem "Máscara" destruir uma cidade). Então, um ANCIÃO VAMPIRO do Clã Ventrue liga para cada um de vocês com uma dica, para acabar com o "mais maligno dos vampiros" que traficava drogas e pessoas. Dá um endereço e recomenda ir à noite e atacar os asseclas deles com o máximo de violência, pois eles são perigosíssimos!

Eles nem questionaram o fato de estarem fazendo o serviço para um vampiro. Simplesmente foram lá.

Chegando no endereço do alvo, um bairro pobre, mas com grandes obras no quarteirão, exceto por uma casa pobre. Um único homem estava na porta, armado de uma ripa de madeira com prego.
- Eu fico invisível e me aproximo dele e guardo minha ação. - Anuncia um
- Eu vou lançar minha nuvem de veneno à distância. - Diz o outro.
- Assim que for atingido, uso minha supervelocidade (teleporte) e ataco-o primeiro. - Fala um terceiro

E assim vai. Todos descrevendo ações devastadoras contra o homem maltrapilho com uma ripa de madeira com pregos. Era um ataque surpresa, então só lanço os ataques dos caçadores... Todos acertaram. Somo os danos e informo que antes ele agir em seu turno, o maltrapilho estava morto e estraçalhado no chão. Alguns fizeram questão de se certificar que ele estava morto, para não aparecer de surpresa no futuro.

Deixando o indigente onde estava, eles arrombam a porta. Anuncio o cheiro de comida azeda que permeia o ambiente - um sala-cozinha, com um único cômodo afastado mas com a porta fechada. A luz não acendia. Um deles, com seus sentidos especiais que só o 3d&t podem conferir detectam duas outras pessoas no ambiente, embaixo da mesa coberta com uma toalha esburacada, um deles era anormalmente menor que um ser humano adulto.

Desta vez o grupo prefere circular a mesa. Todos a postos, eles jogam longe com toalha e tudo... e vêem uma mulher e uma menina, abraçadas em pânico.

No meio das ameaças vociferadas, a mulher diz: - Vocês são da empresa, né? A empresa que veio nos despejar e roubar a casa?

Cai a ficha ao grupo. O empresário Ventrue queria construir um shopping, mas para isso precisaria comprar todas as casas do quarteirão. Aquela família se recusou. Mesmo com a luz e água cortada, e provavelmente alguns capangas enviados para assusta-los, eles permaneceram... Até o grupo chegar.

- Pera lá... ainda dá para salvar o cara? - Pergunta em off um jogador.

- Ele era um humano comum de 3d&t. Tinha um ponto de vida apenas. - Informo friamente. - vocês causaram... deixa eu ver ... 30 de dano, e ainda o envenenaram.

- Pera lá... pera lá... - fala um extraordinariamente. - Ainda dá para salvá-lo ... Se um VAMPIRO depositar seu sangue no cadáver, ele vira um vampiro e volta à vida!

Vamos ignorar essa regra absurda... Apenas para lembrar... Que este grupo deveria ser de CAÇADORES de vampiros, não criadores.

- Eu tenho contatos. - Fala outro (detalhe: Não tinha. Gastaram tudo em combate). – Posso encontrar um vampiro que queira fazer isso. A gente paga!

Entre uma e outra barbaridade que os moleques falavam, eu fazia a filhinha perguntar apavorada: "Onde está o papai?"

Eu imaginei que os jovens iriam fazer isso... Prejudicar a família na ânsia de cumprir a missão. E que daí se tornaria uma missão de vingança contra o Ventrue, que obviamente filmou o ataque dos caçadores e apresentou á polícia, e os "heróis" teriam de combater as autoridades antes de chegar ao vilão... Mas acho que peguei pesado demais. O grupo estava tão triste com o que tinham feito, e parou a parida com pouco mais de meia hora de jogo.

Eu fiz "aventuras de vingancinhas" antes, mas desta, eu me sinto um pouco culpado. O pessoal estava mal mesmo. Queriam uma aventurinha hack-'n-Slash via internet no final dos anos 90 e eu dei a eles um gosto de crueldade madura. Era via MIRC, só posso supor a idade deles. Eu mesmo devia ter 17 anos. Tinha esse "ideal purista" quanto à "A Máscara" e buscava pregar ... Mas a mão pode ter sido mais pesada do que era necessário.

Ainda acho divertido o evento, mas me sinto culpado mesmo assim.